nada

nada dava conta

daquele olhar

encostado no canto

daquele nada

incrustado no teto

date

não fiz a barba
não dei bom dia ao espelho não fiquei online
não abri o email
não fui à padaria
não saí pra pegar as cartas não atendi o telefone
não arrumei a casa

aqui dentro o som da rua
o estalo da janela de alumínio
o ruído da casa de máquinas
a cena de quando ela foi embora a minha respiração inquieta

vesti minha cara amarrada
e fui me encontrar com a solidão

o adeus

as mãos acenam
o peito carrega e deságua a voz naufraga
os olhos chovem
o fim da tarde trágica

a cidade acabou

nunca há tempo
para uma despedida
o abraço uma hora acaba

solidão 949

quando estou porta

quando estou pedra

quando estou mula

quando estou cela

quando estou poste

quando estou vala

quando estou sêca

quando estou lua

quando estou farpa

quando estou falta

quando estou nunca

primeiros socorros (kit)

 

um bolsão quente de abraços

uma faixa de amarrar desesperos

uma voz de travesseiro

um maço de algodão (não serve o salgado)

óleo de massagem para egos

balas azuis

goma de mascar nuvens

luvas de veludo para ouvidos

chocolate suíço XL 500g 

máscaras anti-descaso

comprimidos efervecentes de alegria 350 mg

lambidas de cachorro (pacote com 40 unidades)

merthiolate para melindres

playlist com 200 áudios de risadas de crianças 

pastilhas de sol 

pílulas do esquecimento (de si mesmo)

um disco daquele cantor negro mineiro (para ouvir de luz apagada)

um tubo de pomada do sono (aplicar no dedão esquerdo após as refeições)

um redutor universal de distâncias 2.0

uma passagem de volta pra casa a qualquer hora saindo de qualquer lugar 

 

 

rompante                         

 

envergonhado

com a falsidade das palavras

o poema rompe o papel

e abraça forte

o poeta

hérnia

 

vér

te

bras

en

tu

lha

das

num

can

to

rou

co

neu

ro

ses

em

pi

lha

das

comprimindo

o disco

comprimidos

pa

ra

a

in

nia

da

co

lu

na

ver

te

bral 

 

irrepresável 

 

porque é preciso

enjaular os leões

e fazer os urros

caberem numa lata

onde não cabe

o erro

a birra

o berro

a marra

o murro

o esporro

o aluguel

o imposto

 

nenhuma poesia 

escuro azul

são judas soprando o sino
o pipoqueiro guardando o milho
o sol vermelho empurrando o carrinho pra onde meus olhos febris caminhavam

ponto final na tarde

São Judas soprando o sino
o pipoqueiro guardando o milho
o sol vermelho empurrando o carrinho pra onde meus olhos febris caminhavam

solitude

quando

fico

bem
só

inteiro

fico

são

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