rompante                         

 

envergonhado

com a falsidade das palavras

o poema rompe o papel

e abraça forte

o poeta

foi como chutar um cachorro seu estômago enrugou

sua face contraída se desfigurou

a garganta em brasa

as axilas escorrendo medo a mente esperneando falida

sentiu o peito secar

as formigas escalarem a face e num surto

mais rápido que um susto

virou deserto

date

não fiz a barba
não dei bom dia ao espelho não fiquei online
não abri o email
não fui à padaria
não saí pra pegar as cartas não atendi o telefone
não arrumei a casa

aqui dentro o som da rua
o estalo da janela de alumínio
o ruído da casa de máquinas
a cena de quando ela foi embora a minha respiração inquieta

vesti minha cara amarrada
e fui me encontrar com a solidão

irrepresável 

 

porque é preciso

enjaular os leões

e fazer os urros

caberem numa lata

onde não cabe

o erro

a birra

o berro

a marra

o murro

o esporro

o aluguel

o imposto

 

nenhuma poesia 

primeiros socorros (kit)

 

um bolsão quente de abraços

uma faixa de amarrar desesperos

uma voz de travesseiro

um maço de algodão (não serve o salgado)

óleo de massagem para egos

balas azuis

goma de mascar nuvens

luvas de veludo para ouvidos

chocolate suíço XL 500g 

máscaras anti-descaso

comprimidos efervecentes de alegria 350 mg

lambidas de cachorro (pacote com 40 unidades)

merthiolate para melindres

playlist com 200 áudios de risadas de crianças 

pastilhas de sol 

pílulas do esquecimento (de si mesmo)

um disco daquele cantor negro mineiro (para ouvir de luz apagada)

um tubo de pomada do sono (aplicar no dedão esquerdo após as refeições)

um redutor universal de distâncias 2.0

uma passagem de volta pra casa a qualquer hora saindo de qualquer lugar 

 

 

escuro azul

são judas soprando o sino
o pipoqueiro guardando o milho
o sol vermelho empurrando o carrinho pra onde meus olhos febris caminhavam

hérnia

 

vér

te

bras

en

tu

lha

das

num

can

to

rou

co

neu

ro

ses

em

pi

lha

das

comprimindo

o disco

comprimidos

pa

ra

a

in

nia

da

co

lu

na

ver

te

bral 

 

nada

nada dava conta

daquele olhar

encostado no canto

daquele nada

incrustado no teto

solitude

quando

fico

bem
só

inteiro

fico

são

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